E n t r e v i s t a c o m N i c o l a s V l a v i a n o s Mário Chamie
São Paulo, 1974
Você representa um caso mais ou menos raro de evolução e coerência artística, desde os seus primeiros trabalhos até hoje. Você vê em sua obra momentos de ruptura ou a considera uma linha de pesquisa e produção sem solução de continuidade?
A minha ruptura foi com as estruturas arcaicas de pensamento e ação que me dominaram durante vários anos. Depois, com a prática contínua da escultura, consegui de certo modo atingir um estado de permanente vigilância em que a minha produção e as minhas pesquisas evoluíram simultaneamente. Claro que houve momentos em que precisei recorrer a informações ao meu redor para esclarecer ou superar minhas dúvidas. Mas, em geral, cada nova obra minha se baseia na precedente (ou precedentes).
A sua escultura conseguiu organizar uma linguagem própria, chegando a ser inconfundível na sua expressão e significado. Para alcançar isso você julgou necessário participar de tendências dominantes ou preferiu sempre atuar de modo individual e autônomo?
A minha linguagem é fruto de um certo isolamento aqui, no Brasil. Aliás, nunca, fui muito ligado às modas. Estou ligado, sim, aos problemas que influem sobre o nosso meio. Os movimentos (estéticos, formais, etc.) em geral são reformistas e esta reforma é feita na maioria das vezes de fora para dentro. Os meus trabalhos são imagens metáforas visuais, se você prefere e estas imagens são variações de uma imagem central. As considerações estéticas e/ou formais nascem em função desta imagem central e não são impostas a priori. Assim eu prefiro atuar de dentro para fora, e sempre atento, para não perder o elo com a realidade presente.
Podemos fazer uma distinção entre contemporaneidade e atualidade. O que é atual nem sempre é contemporâneo e vice-versa. Essa distinção tem importância para você? Em que medida?
Tem importância para mim, desde o momento em que atuamos com responsabilidade. No meu modo de pensar, re-criar ou re-inventar o que já foi criado ou inventado pode dar a medida da competência de determinado indivíduo, ao mesmo tempo em que revela a tendência deste indivíduo para se confundir, em termos de produção artística. A arte não é um fato isolado e sim um processo contínuo e progressivo. Nesta base, atual seria algo que explora as potencialidades de hoje (em todos os níveis) e contemporâneo seria um produto de nosso tempo infiltrado de componentes e informações já consumados.
O que impressiona nas suas peças é a presença constante de certos materiais como o cobre, o aço e o bronze. Existe alguma relação íntima entre esses materiais e as soluções simbólicas, humanas e dramáticas que caracterizam a sua escultura? Seria possível dizer a mesma coisa através de outros meios?
Os materiais, como também as ferramentas e os métodos de trabalho, são meios para construir uma obra. Não são todavia escolhidos e adotados ao acaso. Surgem e evoluem em concomitância com a pessoa que os utiliza, submetendo a sensibilidade do artista a uma constante prova. Acredito que diria a mesma coisa através de outros meios. As soluções porém teriam que ser outras. A estética depende dos meios, as idéias não.
As suas últimas peças parecem acentuar certos elementos que lhe são muito próprios. Por exemplo: o permanente contraponto entre geométrico e orgânico, entre mecânico e vital, entre razão e intuição, entre real e virtual. Isso refletiria as contradições de nossa civilização tecnológica em que o homem se divide entre a frieza lógica e a necessidade da fabulação imaginária?
Penso que a própria condição de "ser homem" implica nesta dicotomia ou, melhor, na coexistência do impulso animal com o racionalismo intelectual. A arte sempre recorreu a estas fontes e podemos perceber a presença dos elementos apolíneo e dionisíaco separados ou juntos durante toda a história da arte. Hoje, por razões sociais, psicológicas e outras, a dicotomia é mais pronunciada, sendo reconhecida de modo imediato. A luta de Jacó com o arcanjo não acabou. Como um eterno desafio, está na raiz da nossa própria existência, como seres civilizados e como seres sociais.
Existe um certo discurso poético em sua escultura. Esse discurso é marcado por algumas referências metafóricas de grande força expressiva. Duas delas aparecem com freqüência: a árvore e o pássaro. Ambas assumem aspectos de espectros vivos, carregados de um movimento latente contido nos reflexos das superfícies lisas do metal, na sua textura rugosa ou nos entrelaçamentos "vegetais" de laços e liames. Todas essas referências brotam sempre de uma base rígida. Seria válido ler, através desse discurso, que o universo do homem moderno é o novo espaço integrado, ao mesmo tempo, pelas formas animadas da natureza e pelas formas do artefato mecânico e industrial? Ou seria o sonho antecipado da devastação?
Esta sua pergunta está diretamente ligada à anterior. No meu modo de ver, o universo é uno, só as aparências diferem. A planta ou o pássaro ou o homem (também constante na minha obra) são manifestações da mesma força vital e estabelecem um contraponto com as manifestações do intelecto humano. Dado que sou uma pessoa otimista, acho sua primeira suposição mais válida. O universo do homem moderno é este espaço integrado pelas formas e forças da natureza-natural e pelas formas e forças da natureza-artificial. O medo da devastação é a consciência da nossa fragilidade individual. Creio que a humanidade terá meios para superá-lo.
As suas peças não têm um espaço predeterminado e privilegiado. Onde quer que estejam, fazem com que o espaço ambiente gire em função delas. Isso, de alguma maneira, compensaria o fato de que elas não são "abertas" e nem manipuláveis pelo espectador?
Existe uma certa confusão em torno dos conceitos "obra aberta ou manipulável". De certo modo seria uma tentativa de apropriar-se de algumas tendências da sociedade de consumo, para persuadir o eventual comprador no sentido de que estaria adquirindo "várias obras", pelo preço de uma. Aliás, é curioso que se fale muito em obra aberta e não em arte aberta. Dessa maneira dá-se ênfase somente ao objeto e não ao sujeito. Eu acredito mais em mentes abertas que possam compreender e fruir estruturas das mais simples às mais complexas. Agora, penso que quanto mais for possível evitar a distração do espectador manipulador , tanto mais precisa será a informação. A arte e a sociedade modernas são constituídas de vários elementos diversos, e interpretáveis em vários níveis.
Dentro de uma suposta tradição brasileira, como você situaria o seu trabalho?
Penso que não existe uma tradição brasileira, especialmente na escultura. Existe, sim, um ambiente (environment) brasileiro. O meu trabalho, como o dos outros escultores brasileiros, sofre as influências deste ambiente, nutrindo-se de informações vindas de outros centros. Aliás, isto faz com que a escultura no Brasil e a arte em geral seja muito mais vigorosa e independente. Pode parecer um paradoxo, mas isso é compreensível, já que a tradição atua como freio e é preciso muita coragem para superá-la. É muito reconfortante se situar dentro da tradição e agir segundo os seus ditames.
Calder libertou a escultura do peso. Tinguely consagrou a idéia de escultura em movimento. O grego Takis propôs a escultura magnética. Como você situa a sua produção e as suas soluções diante dessas possibilidades?
Como você diz, estas são as possibilidades de Calder, Tinguely e Takis. Existem inúmeras outras. A arte como a vida se nutre de tudo o que encontra ao seu alcance e dela própria também. Assim, cada um escolhe seu meio, e se expressa através dele. Seria errôneo pontificar que determinados meios são mais válidos ou adequados do que outros. Todos são válidos e adequados, e o resultado tem que transcendê-los.
A sua escultura não confunde temática com problemática. A problemática que ela contém é uma indagação sobre a condição humana ou é apenas o testemunho de uma experiência individual?
As duas. A experiência individual é a soma dos conhecimentos do homem em face ao seu destino. E o esforço de influenciar este destino gera esta problemática. A minha, questiona a relação entre mecanismo e vitalismo. É, de certo modo o espectador quem receberá a resposta.
Mário Chamie
São Paulo, 1974