Vlavianos, passado e presente / Vlavianos, past and present
Paris 1956 -1961
Vlavianos e Paniaras / Vlavianos and Paniaras
Os anos 60: Vlavianos / The sixties: Vlavianos
Vlavianos, escultor / Vlavianos, sculptor
Os anos 70: Depoimento / The seventies: A statement
Entrevista com Vlavianos / Interview with Vlavianos
Os anos 90 / The nineties
Os anos 80 / The eighties
Nicolas Vlavianos
O "essencialismo" de Vlavianos / The "essentialism" of Vlavianos
Atenas, Paris, São Paulo, Nova York / Athens, Paris, Sao Paulo, New York
Um projeto heraclitiano de vida e obra / An Heraclitean life and work project


O   "e s s e n c i a l i s m o"   d e   V l a v i a n o s                  Marc Berkowits
Rio de Janeiro, 1986

Sopra uma brisa refrescante e renovadora nesta atmosfera abafada e estagnada da arte brasileira. Não estou me referindo aos esforços (vãos) de

transformar o expressionismo e outros "ismos" em arte de vanguarda, nem às promoções tais como a "Geração 80", que quase afundou alguns verdadeiros talentos (já conhecidos) num mar de mediocridades. Formado por "artistas" que mal apareceram já caíram no esquecimento. Os que sobraram são os artistas que possuem personalidade, que não obedecem a modas, que criam as suas linguagens próprias, que não produzem para agradar a críticos ou marchands. São esses os artistas que ficam e que crescem. Como Nicolas Vlavianos.

Vlavianos é grego e escultor — que responsabilidade! Com a qual sempre soube arcar. Nos muitos anos que o conheço, sempre notei — e admirei — a independência e a personalidade da sua obra. Ele escolheu um caminho e por ele seguiu, sem concessões, com a maior seriedade.

Vlavianos parece irremediavelmente atraído pelo brilho do aço, pela cor eventual de alguns elementos. Mas não é aquele brilho dourado do bronze excessivamente polido, o brilho que aparentemente "enriquece" o ambiente e os bolsos dos marchands. Vlavianos optou por uma arte severa e despojada, pelo brilho ocasional e frio do aço e do alumínio quando polidos. Não é o despojamento do construtivismo, da arte minimal. A severidade é sempre aliviada por elementos às vezes barrocos, às vezes lúdicos; por interferências cinéticas e até por influências "pop" e um certo senso de humor. Em outras palavras, com o passar do tempo, Nicolas Vlavianos foi desenvolvendo o seu estilo pessoal, que torna um trabalho dele reconhecível de longe.

Nos últimos anos houve uma depuração na obra de Vlavianos, uma eliminação de certos aspectos exuberantes e até barrocos, até a chegada ao "essencialismo" (será que inventei uma palavra?) da maquete de uma escultura de 1985, em alumínio fosco e polido. O caminho de Vlavianos não é o mesmo de um Sérgio Camargo, Franz Weissmann, Sérvulo Esmeraldo, que apresentam um produto final — e não importa o material, nem o uso ou não da cor com um acabamento que nada mostra do processo da feitura da obra. Nicolas Vlavianos, freqüentemente, faz questão de mostrar esse processo através da integração de parafusos e outros elementos na imagem que resulta de seu trabalho. De uma certa maneira, o espectador participa do processo, sem que disto resulte uma desmistificação. A independência do modo de criar e de pensar de Vlavianos é exemplificada pela sua atitude diante da figuração e da abstração. Por vezes podem entrar elementos figurativos, nuvens, árvores; às vezes eles desaparecem totalmente. E que importa? Porque sempre permanece a presença independente, livre e original de um escultor que domina totalmente o seu instrumental, que se libertou de todas as amarras.

Marc Berkowitz
Rio de Janeiro, 1986