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Um projeto heraclitiano de vida e obra Olívio Tavares de Araújo
São Paulo, 2000
Escrevendo há quinze anos sobre a escultura de Vlavianos inventei uma equação que até serviu de título ao texto: Vlavianos hoje = Vlavianos sempre. Embora saibamos
que, na ciência moderna, novas descobertas e teorias ensejam novas leituras dos fenômenos, é também verdade que nosso desejo de estabilidade e exatidão se compraz com o fato de que isso não altera a veracidade e/ou operacionalidade de certas formulações anteriores. Em suma, apesar da mecânica quântica, da física infra-atômica e do princípio de indeterminabilidade de Werner Heisenberg, é bom saber que a Terra ainda gira ao redor do Sol e que o quadrado da hipotenusa continua sendo igual à soma dos quadrados dos catetos.
E que Vlavianos hoje continua igual a Vlavianos sempre. Há em sua produção dos últimos dez ou quinze anos, por força, modificações temáticas e formais, porque o artista continua em ação. Mas por baixo de tudo se instauram os mesmos problemas, as mesmas questões, a mesma visão do mundo e desejo de integração e completude manifestados na busca da sistemática conciliação de algumas dicotomias e oposições. Vale relembrar que Vlavianos vem da pátria da luz e da razão, do lógos, da paidéia, da areté, da kalokagathia, de tantos valores humanistas que revelam uma concepção antropocêntrica e harmoniosa do universo, mas também do lado noturno, do Nachtsseite exumado por Nietzsche das profundezas do "milagre grego". A Grécia antiga era bem mais complexa do que fazem supor os livros de história do ginásio. Havia crueldade e escravidão. Sobre esta construía-se o ócio que, segundo o próprio Aristóteles, é necessário para que se possa filosofar. As mais belas idéias de Platão florescem por cima do sofrimento de indivíduos. Os templos gregos não tinham a brancura que hoje ostentam, e que imaginamos fosse resultado de um desejo de limpidez. Eram pintados de cores fortes e dramáticas, azuis, ocres e bordôs. Ficaram brancos, é claro, devido a vinte séculos de chuva.
Mas voltemos à minha tese. Já em 1966, Mário Pedrosa, apresentando uma exposição de Vlavianos no MAM do Rio, apontava em sua obra um "duelo entre a forma e a não-forma", referindo-se à coexistência e/ou alternância, ao longo das peças, de uma vertente construtivista, de índole geométrica, e outra orgânica e expressiva. Pedrosa exemplificava a primeira com as "estruturas com rebites e parafusos distribuídos regularmente em intervalos iguais, introduzidos insolitamente nos amontoados argamassados de seus materiais", e a segunda, com as "partes juntadas ao acaso, resultantes por assim dizer involuntárias ou incontroladas da pressão de pedaços de ferro", que dariam vazão, ainda, ao "momento em que o artista no escultor se entrega ao seu demônio interior".
Não sei se jamais houve nele algo de involuntário, nem eu falaria, hoje, de "demônio interior", em português, já que à luz dos anos e da produção posterior parece-me certo que Vlavianos é um temperamento muito mais apolíneo que dionisíaco (para usarmos a famosa dicotomia nietzschiana que também vem da Grécia clássica); mas Pedrosa o faz no sentido grego de daimon, aquele fogo íntimo que leva à criação e nela se expressa. O de nosso escultor caracteriza-se desde então pelo diálogo entre o construído e o sensível, como também o salientaram Walter Zanini e Mário Chamie, em textos da década de 70. O primeiro fala de "interação de formas rígidas e ortogonais e texturas informais", o segundo, de "contraponto entre o geométrico e o orgânico, entre mecânico e vital, entre razão e intuição, entre real e virtual".
É o que descreve Vlavianos até hoje. Com a maturidade, é verdade que a relação ao mesmo tempo amorosa e conflitiva que o ligava a seu material (e que permitiu a Pedrosa mencionar a "pressão" deste) foi-se tornando mais amigável e suave. Em lugar da chapa de ferro amassada e oxidada de outros tempos, o aço inoxidável e a chapa de aço são dóceis sob suas mãos, polidos, na maioria das vezes brilhantes, prestando-se a uma mensagem mais cool. Sem nunca ter sido efetivamente abstrata girando sempre em torno de três grupos temáticos: máquinas imaginárias, plantas e a figura humana , sua obra se tornou cada vez menos literal, exceto por momentâneas incursões, como as que sugerem utensílios domésticos, ainda assim "pertencentes" ao núcleo dos troncos e lianas. A busca de conciliação de opostos é mais sutil, mas permanece. Certas formas crescem organizadamente, mas com a festiva vitalidade de folhas que sobem pelos galhos. Contrapõem-se e completam-se o mundo natural, simbolizado, e o puramente intelectual, transposto sob a forma de geometria.
Com a maturidade, Vlavianos foi-se tornando, também sem nunca abandonar nem excluir o outro pólo , um escultor mais geométrico que antes. Certamente reside nisso sua resposta pessoal, sua forma de ser dentro de duas realidades, uma brasileira, outra latino-americana, que vieram a cercá-lo em sua nova pátria. Desde a década de 70 fala-se com insistência de uma "vocação construtivista" da América Latina, querendo enfatizar a inegável boa qualidade da produção de artistas dessa índole nos vários países de fala espanhola e no nosso. Pode parecer surpreendente e contraditório, dentro de um ecossistema e uma cultura indisciplinados, quentes, supostamente expressivos antes de mais nada, mas parece ser justamente uma reação à entropia tropical, uma tentativa de resistir-lhe e ordenar-se. Por outro lado, fala-se muito também, no Brasil, da "geometria sensível", a que não nasce de fórmulas e regras, como a dos concretistas ortodoxos, e sim de decisões intuitivas, como (modelarmente) a de Volpi. Não é sem motivo que a melhor escultura brasileira do século acabou tendendo para isso a de Lygia Clark na época dos "bichos", a de Amilcar de Castro, a de Sérgio Camargo, Franz Weissmann, Sérvulo Esmeraldo e não é por outro motivo que Vlavianos enveredou por esses rumos.
Mas enveredou à sua maneira. "Há muito habituamo-nos a reconhecer suas peças ao mais leve contacto", escreveu Walter Zanini em 1993. O escultor greco-brasileiro consegue ser ao mesmo tempo inconfundível e original. Não é um purista, nem um ilustrador de teses, nem um apóstolo. Sua linguagem permanece avessa a qualquer regra (a não ser, é claro, as regras intrínsecas que cada peça proponha para si mesma, para sua própria solução) e não se parece com a de qualquer outro artista, no Brasil ou fora dele. Não é um elogio pequeno, sobretudo num país onde freqüentemente mesmo criadores talentosos constituem epígonos de mestres que os antecederam e foram, efetivamente, os inventores das propostas e soluções que os continuadores adotam. Não importa se tematicamente (termo que uso aqui cum grano salis) se trata dos astronautas e hominídeos dos anos 70, das plantas e nuvens dos 80, das máquinas e instrumentos musicais e as paráfrases de utensílios domésticos dos 90, Vlavianos dá sempre um jeito para que as mesmas constantes estilísticas os permeiem, os mesmos arrebites, parafusos e porcas dialogando com recortes informais, volumes e relevos, de modo a descobrir e impor uma harmonia de contrastes. Não deixa de ser, aliás, um projeto (não formulado verbalmente mas creio que consciente) muito Grécia pré-socrática, muito heraclitiano: conciliar opostos, ou melhor descobrir que eles se incluem mutuamente.
É o que já se percebeu com clareza também fora do Brasil e diante de uma amostragem menor, mas suficientemente clara e enfática. A historiadora Joan Marter, no catálogo da exposição de 1984 em Nova York, observa que as esculturas de Vlavianos "são preenchidas com a oposição das formas internas e evocam os processos sempre cambiantes que se encontram em todos os aspectos da vida". Só com a vida, aliás, se faz arte verdadeira, e ela é tão matéria-prima quanto os mármores, madeiras, tintas e papéis com que se corporifica o objeto. Vlavianos hoje, como Vlavianos sempre, navega no perigoso mar do viver embarcado na perigosa mas inevitável embarcação que é cada obra.
Olívio Tavares de Araújo
São Paulo, 2000
Cineasta, crítico e curador de arte. Foi editor-assistente e crítico de artes plásticas e música erudita das revistas Veja e IstoÉ e colabora esporadicamente com os jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. É autor de mais de 200 textos publicados em catálogos e de nove livros, entre os quais Dois estudos sobre Volpi (1986), Procurar Mozart (1991), Brennand (1997) e Silva: a pintura e não o romance (1998). Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), recebeu por duas vezes da primeira o Prêmio Gonzaga Duque, por seu trabalho em cinema sobre arte (1979) e pelo conjunto da produção (1998).
Como cineasta, realizou e dirigiu mais de 40 documentários de curta e média-metragem, a maior parte sobre a criação artística. Os mais conhecidos são seus filmes sobre Volpi, Farnese de Andrade, Siron Franco, Tomie Ohtake, e seus vídeos sobre Guignard, Maillol, Brennand, Vieira da Silva, o Abstracionismo no Brasil e Gravura brasileira. Participou, entre outros, dos festivais de Cannes, Nyon, Filmex de Los Angeles, Montreal, Brasília e Gramado, e foi premiado nos três últimos.

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