Vlavianos, passado e presente / Vlavianos, past and present
Paris 1956 -1961
Vlavianos e Paniaras / Vlavianos and Paniaras
Os anos 60: Vlavianos / The sixties: Vlavianos
Vlavianos, escultor / Vlavianos, sculptor
Os anos 70: Depoimento / The seventies: A statement
Entrevista com Vlavianos / Interview with Vlavianos
Os anos 90 / The nineties
Os anos 80 / The eighties
Nicolas Vlavianos
O "essencialismo" de Vlavianos / The "essentialism" of Vlavianos
Atenas, Paris, São Paulo, Nova York / Athens, Paris, Sao Paulo, New York
Um projeto heraclitiano de vida e obra / An Heraclitean life and work project

A orientação antropomórfica logo assumiu papel relevante, dominada por uma concepção hierática, ganhando em monumentalidade, em destreza de execução, acentuando-se, por outro lado, os aspectos crípticos que permeiam sua visão poética, como vemos em O esperado II (1964), hoje na coleção do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Nessa peça exemplar, o esotérico

conjuga-se sobretudo à presença do elemento primitivo que considera subsistir no ser humano.

No mesmo ano, ele produziu em latão e na madeira algumas figuras atípicas — algo como os espantalhos — inquietantes e de grande liberdade expressiva, alimentadas por um germe surreal. É ainda então que Vlavianos, na dimensão da estatuária, assim como no pequeno formato, recorrendo sutilezas de humor irônico, realizou uma série de imagens robotizadas a que chamou de "Personagens" — que mostram achados formais na justaposição do relevo traumatizado pela dobra com amplas extensões lisas. "O Homem e a máquina: este é o meu tema" declarou ele certa vez. Mais explicitamente o homem e a fatalidade de sua interação com a máquina. Mas é a primitividade remanescente no homem da idade tecnológica que constitui a preocupação por excelência do artista: "O homem atual tem as mesmas fobias e manias do homem primitivo", eis uma frase que ele reiterou inúmeras vezes. Essa preocupação com memórias longínquas impressas no espírito humano e absolutamente não diluídas estará sempre presente na obra futura de Vlavianos.

Sem título, 1965. Madeira queimada e ferro,
90 x 100 x 25 cm. Obra destruída.

A partir de 1966, aproximadamente, ele diversificou os materiais, empregando, além do ferro e do latão, o alumínio, o cobre e mais ainda o aço inoxidável, mantendo, por outro lado, o aproveitamento dos resíduos industriais. Como em circunstâncias anteriores, sua evolução se fez sem sobressaltos, intertextualizando passado e presente. Por breves períodos, na segunda metade dos anos 60, construiu algumas séries de cofres onde o discurso era de prevalência subjetiva, valendo-se de materiais como o acrílico e o poliéster, assim como o alumínio, além do aço inoxidável. Sua participação no ambiente artístico brasileiro era então uma evidência das mais sensíveis, numa obra que respirava as inquietações do país na obscura época da ditadura. Vlavianos era figura procurada nas exposições onde se apresentava com freqüência. Ao lado do plano artístico, sua atuação influente de professor — tarefa da qual nunca se descurou — possui um alto mérito que deve ser sublinhado.

Sem título, 1966. Ferro soldado e pintado,
alturas: 235, 210 e 200 cm.Col. particular.

Na sua continuidade escultórica, surgiram os "Astronautas", de proporções pequenas ou médias, depois de erguer algumas figuras, a que chamou de "Indômitos", superpondo cubos compactos e vazados. Estes assinalavam-se pelo espírito de síntese e o gosto pelo "mistério" do arcaísmo. Não só se impunham as alternâncias entre os volumes plenos e os espaços ocos, porém também a integração de rígidas formas ortogonais e texturas as quais contribuíram para trazer uma grande força icônica a essas imagens caracterizadas pelos seus aspectos temíveis. Infelizmente, porém, ele deteve-se pouco nessas soluções. Naqueles anos voltou-se também para a feitura de numerosos relevos revestidos de cores. Todavia, foi à figura do astronauta que passou a dedicar um esforço concentrado. Essas representações respondiam a um duplo sentido, com seu aspecto funcional de vôo e o seu peso. Seus princípios estruturais de simplificação da imagem humana foram reaplicados nessa simbolização da conquista do espaço.

Personagem, 1968. Latão soldado, 70 x 24 x 12 cm.
Col. Haron Cohen, São Paulo.

Uma série de paralelos de Vlavianos com outros escultores poderia ser traçada quando se fala dos "Personagens". Aqui há um relacionamento a fazer, por exemplo com The watchers, de Chadwick. Entretanto, em vez das exíguas e estáticas imagens do influente artista inglês, envoltas numa atitude de expectativa, as figuras de nosso artista — de escala avantajada e de forma compacta — exibem uma atitude resoluta, dinâmica e ao mesmo tempo ameaçadora do homem na sua correspondência direta com os fatores condicionantes que o podem afligir na sociedade tecnológica. Um próprio sense of humour igualmente o distancia da espirituosidade de Chadwick. O seu contexto tecno-humano difere, por outro lado, da atmosfera mítica e menos humana dos ídolos imaginados por Paolozzi. Os "Astronautas" reafirmaram no aço inox toda a investigação anterior da figura humana. A definição de suas partes foi reduzida ao essencial em variantes onde explorou, com a habitual desenvoltura, as possibilidades expressivas do metal e da solda. Deve-se assinalar as influências prováveis recebidas de circunspectos formalistas como Wotruba e Hoflehner no uso de alguns elementos de estilo. O que no entanto especifica a obra de Vlavianos — onde a concepção esquemática da figura, seguindo a lei da frontalidade, atenua-se pelas assimetrias dos componentes formais e os contrastes de matéria — é a riqueza da expansibilidade do ser que explora, o conteúdo complexo de sua natureza, fruto de uma existência de muitos milênios e que não se perde no seu desenvolvimento atual. Para esse ser de uma era nova, não buscou dimensões ou ênfases extraordinárias: ele o vê simplesmente no processo de uma evolução inseparável de outras vivências. Investe-o por isso de ressonâncias, fazendo-nos interrogá-lo.