Vlavianos, passado e presente / Vlavianos, past and present
Paris 1956 -1961
Vlavianos e Paniaras / Vlavianos and Paniaras
Os anos 60: Vlavianos / The sixties: Vlavianos
Vlavianos, escultor / Vlavianos, sculptor
Os anos 70: Depoimento / The seventies: A statement
Entrevista com Vlavianos / Interview with Vlavianos
Os anos 90 / The nineties
Os anos 80 / The eighties
Nicolas Vlavianos
O "essencialismo" de Vlavianos / The "essentialism" of Vlavianos
Atenas, Paris, São Paulo, Nova York / Athens, Paris, Sao Paulo, New York
Um projeto heraclitiano de vida e obra / An Heraclitean life and work project

Uma segunda geração de "Astronautas" surgiria na década de 70, de uma concepção arquetipal idêntica à primeira, porém enriquecida de variantes de estílo e posturas, nas proporções estabelecidas entre corpo, asa e cabeça e especialmente na valorização dos detalhes. Nessa nova fase de aplicação ao tema, sua investigação evoluiu para as formas longilíneas, serpenteantes, de superfícies corrugadas que,

encaixadas em volumes ortogonais lisos, provocam pela sua sutileza e os contrastes de matéria, soluções do mais alto grau de refinamento. Ao mesmo tempo que renovou sua imagem humana ele voltou-se, no entanto, para interesses temáticos anteriormente esporádicos — como o pássaro — ou mostrando preocupações algo inesperadas, em se tratando de um escultor, como as que resultaram na série das "Plantas".

Planta, 1972. Aço inox soldado e polido, 86 x 30 x 26 cm.
Col. do artista, São Paulo.

O mundo vegetal trouxe-lhe sugestões para explorações concomitantes aos seus ícones. Em lugar dos volumes fechados, apareciam agora emaranhados de formas lineares que se precipitavam no espaço. A participação textural do relevo, antes pouco importante, assumia um papel de maior responsabilidade na definição global da imagem. A flora, ao contrário da figura humana e do animal, não exerceu maior atração na sensibilidade dos escultores, embora exemplos possam ser apontados na arte contemporânea. Em verdade, os escultores apreciam colocar o que fazem junto à vegetação para realçar os contrastes entre a sua criação e a do mundo vegetal. Em certo momento do decênio de 70, Vlavianos, escultor do homem, dispôs-se a enfrentar o desafio de uma obra transfiguradora da intrincada e faustosa natureza tropical. De sua contemplação à decisão de tomá-la como modelo para uma nova experiência decorreram muitos anos de sua vida no Brasil. O que ele obteve elaborando pequenas peças de aço inox, através da complicada junção de tubos de vários diâmetros ligados a chapas rebatidas e soldadas a que se enredam fios, constitui resultado de uma prospecção que só veio a tornar-se possível sob a instigação permanente do meio ambiente. A busca da sensação da plenitude floral, incluindo-se a luta silenciosa e voraz entre as espécies, fizeram a riqueza plástica dessas esculturas — uma contribuição certa e sui generis para a escultura moderna.

Mais recentemente, no entanto, as "Plantas" passaram a existir noutro contexto com o aproveitamento das investigações formais e materiais introduzidas na segunda geração dos "Astronautas". Como definir melhor essas formas inquietas, de contornos ondulantes, que igualmente nos "Pássaros" descrevem percursos divagantes sem desentrosar-se de ajustados planos geométricos? Da utilização na figura humana a idéia transferiu-se para a representação da realidade vegetal. Valendo-se de seus métodos de agenciamento de texturas diversas, ele contrapôs suas vermiculações às superfícies lisas embutindo-as no vácuo dos planos geométricos puros. Sem dúvida, o artista acentuou os elementos germinativos da natureza ao mesmo tempo que decresceu o empenho que manifestava pelo seu estágio final. Outras soluções foram propostas pelo escultor, como as formas recortadas ou segmentadas por tensos fios de aço ou latão, onde a suntuosidade e a dramaticidade confluem em estranha união.

Planta-pássaro, 1976. Aço inox soldado e polido,
43 x 98 x 9 cm. Col. Rebeca Papautsky, São Paulo.

O tema do pássaro voando, que ele desenvolvia em volumes simples, já recebia a mesma solução antes dessa nova série de "Plantas". Num certo momento houve a descoberta de que esses dois mundos naturais poderiam ser condensados num só. A essa simbiose, que é uma simbolização complexa da vida, deu o nome de "Planta-pássaro", declarando: "A planta ou o pássaro ou o homem são manifestações da mesma e única força vital".

Outros ângulos de Vlavianos exigiriam registro mais detido. A inclusão do déchet tornou-se freqüente em diferentes oportunidades porém a crescente busca do rigor técnico obrigou-o a nada mais deixar ao sabor do acaso. Embora normalmente suas esculturas tenham a cor natural do metal não foram raras as peças que revestiu de tinta, retomando princípios antepassados. Ao lado de numerosas obras monumentais públicas que lhe foram encomendadas — como o painel para a Confederação dos Trabalhadores na Indústria, em Brasília; a escultura em ferro pintado colocada numa rua do velho centro da capital paulista (intitulada Progresso); o painel de planos modulados em repoussé do edifício Jorge Rizkallah Jorge, também em São Paulo, etc. — ele não arrefeceu uma atividade de atelier dedicada a peças de dimensões menores e produziu séries de múltiplos (peças em verdade resolvidas individualmente), que contribuíram à renovação de sua linguagem.

Painel, 1977. Aço inox sobre estrutura de ferro, c. 24 m2.
Edifício Jorge Rizkallah Jorge, São Paulo.

Como vimos, paralelamente à figura humana que pesquisou numa síntese de conceitos de primitividade e de existencialidade hodierna — e que preservou uma qualidade enigmática aliada a uma aura de sabedoria bem humorada — Vlavianos estendeu suas preocupações à representação de formas da natureza, considerando a vinculação íntima das diferentes espécies de vida. Outro conceito que desenvolveu é o do universo do homem moderno "integrado pelas formas e forças da natureza natural e pelas formas e forças da natureza artificial".

Personalidade ao mesmo tempo cordial e polêmica, dúctil e no entanto obstinada em alcançar os seus fins, não se descomprometeu dos desígnios que se impôs há mais de vinte anos em Paris, reforçando-os no Brasil, malgrado o isolamento que sentiu ao chegar. A forte vaga de desmaterialização não podia afastá-lo de seus metais e de suas ferramentas. Ele manteve firmes os fundamentos estéticos de sua mensagem. Esporadicamente o vimos interessar-se teoricamente pelo fenômeno da arte conceitual e mesmo tomar parte em happenings. Entretanto, sua atitude diante da arte era definitiva. Engajado na responsabilidade artesanal, revelou-se um militante dos mais ativos na participação que configurou a escultura do século XX, uma linguagem essencial na caracterização da arte contemporânea e cuja importância provavelmente não foi ainda de todo conscientizada.

A trajetória de Nicolas Vlavianos, que compreende várias fases encadeadas com naturalidade, traz uma contribuição incontestável à escultura do país que adotou. A obra por ele criada, e em processo, por outro lado, merece a apreciação no âmbito internacional, onde raramente atua, completamente envolvido como se acha na consecução de seu trabalho em São Paulo.